Companhia das Letras,
2001 (publicado originalmente em 1979).
Creio que essa seja a
resenha mais difícil que farei para este blog. Mais pra frente eu
explicarei o porquê. Antes, preciso contar sobre a saga que
enfrentei para ler o livro.
Eu o adquiri em 2011,
após um dos meus professores de Literatura da faculdade falar
maravilhas de sua estrutura narrativa. Creio que ele traçou um
comparativo entre a estrutura de narrativa-moldura presente na obra
do Calvino e na grande obra das Mil e Uma Noites,
porém minha memória é falha. Encontrei o livro em um sebo perto de
casa, numa edição meio feiosa – gosto da capa mais recente – e
mergulhei de cabeça na leitura, mas, sei lá por qual motivo, não
consegui passar da página 82. Deixei o livro em stand-by,
como disse
anteriormente que faço. Ele me pediu uma segunda chance em junho de
2012. Tentei ler de onde parara, mas não recordava da história.
Decidida, recomecei tudo. Adivinhem, caros leitores, o que aconteceu?
Se vocês responderam que
eu empaquei novamente na página 82, acertaram! E mais uma vez o
livro ficou em stand-by...
Apenas em janeiro deste
ano o livro me chamou pela terceira e última vez. Para não correr o
risco de cair no buraco da página 82 outra vez, segui a leitura de
onde parara. Em aproximadamente uma semana eu finalmente concluí a
leitura. Compartilho essa história não somente porque ela é
tragicômica, mas também para ilustrar que eu às vezes retomo
leituras, mesmo que elas estejam há anos em stand-by,
desde que os livros me chamem de novo.
Por que digo que essa é
possivelmente a resenha mais difícil que farei? Porque não vejo
meios de falar sobre o livro sem dar algum tipo de spoiler!
Entretanto, não posso privá-los de conhecer ao menos um pouco desse
livro fantástico. Por isso, alerto-os desde já, caros leitores: é
possível que escape um ou outro spoiler
sobre o livro; nada que comprometa a leitura, mas se você deseja
jogar de cabeça na leitura sem maiores informações, por favor,
fique à vontade. Já deixo minha recomendação aqui registrada e
boa sorte! Já aqueles que não temem o vento e os spoilers
de pequena monta – e confiam em meu discernimento – sintam-se
convidados a ler os parágrafos adiante.
Se um viajante numa
noite de inverno
possui, conforme dito no início da resenha, estrutura comparável à
forma que as histórias das Mil e Uma Noites foram estruturadas, ou
seja, com histórias que se interligam. O livro começa com a ida do
Leitor – sim, esse é o nome pelo qual conhecemos o personagem –
à livraria para comprar o mais novo romance de Italo Calvino, que se
chama Se
um viajante numa noite de inverno.
Ao começar a ler, entretanto, ele se depara com trechos de outra
história encadernados no suposto livro de Calvino. Decidido a trocar
seu exemplar por um sem defeitos, o Leitor entra em diversas tramas e
narrativas que o levarão para rumos bem distantes da sua intenção
original.
Isso é o mais próximo
que consigo chegar de uma sinopse do livro sem estragar a surpresa de
nenhum leitor. Para maiores detalhes, só lendo mesmo.
Essa é a capa. Feiosa, não? |
A tradução foi feita
por Nilson Moulin e não tenho do que me queixar. A
Companhia das Letras
costuma escolher bem seus tradutores e a leitura flui naturalmente,
como esperamos que uma tradução bem-feita flua – novamente, deixo
claro que falo aqui como uma leiga nos assuntos tradutórios. Caso
você discorde de mim, sinta-se à vontade para deixar sua opinião e
os devidos argumentos nos comentários. Minha edição é aquela com
a sobrecapa roxa, igual na foto acima, e a capa num tom feioso de
bege (confira na foto ao lado). Como foi um exemplar adquirido em sebo, está meio velhinho,
mas os cadernos estão todos costurados e o papel é de boa qualidade
(o famoso papel pólen, amarelado). Geralmente a Companhia das
Letras também costuma tratar bem de suas edições, embora tenha
criticado a desatenção que eles tiveram com alguns livros do Mia Couto.
Deixo abaixo um trecho do
livro, apenas para abrir o apetite de quem ficou interessado. Não
contém spoilers
e quem é amante dos livros vai gostar, eu garanto.
Pois então você leu
num jornal que foi lançado Se
um viajante numa noite de inverno,
o novo livro de Italo Calvino, que não publicava nada havia vários
anos. Passou por uma livraria e comprou o volume. Fez bem.
Já logo na vitrine da
livraria, identificou a capa com o título que procurava. Seguindo
essa pista visual, você abriu caminho na loja, através da densa
barreira dos Livros Que Você Não Leu que, das mesas e prateleiras,
olham-no de esguelha tentando intimidá-lo. Mas você sabe que não
deve deixar-se impressionar, pois estão distribuídos por hectares e
hectares os Livros Cuja Leitura É Dispensável, os Livros Para
Outros Usos Que Não A Leitura, os Livros Já Lidos Sem Que Seja
Necessário Abri-los, pertencentes que são à categoria dos Livros
Já Lidos Antes Mesmo Antes De Terem Sido Escritos. Assim, após você
ter superado a primeira linha de defesas, eis que cai sobre sua
pessoa a infantaria dos Livros Que, Se Você Tivesse Mais Vidas Pra
Viver, Certamente Leria De Boa Vontade, Mas Infelizmente Os Dias Que
Lhe Restam Para Viver Não São Tantos Assim. Com movimentos rápidos,
você os deixa para trás e atravessa as falanges dos Livros Que Tem
A Intenção De Ler Mas Antes Deve Ler Outros Livros, dos Livros
Demasiado Caros Que Podem Esperar Para Ser Comprados Quando Forem
Revendidos Pela Metade Do Preço, dos Livros Idem Quando Forem
Reeditados Em Edições De Bolso, dos Livros Que Poderia Pedir
Emprestados A Alguém, dos Livros Que Todo Mundo Leu E É Como Se
Você Também Os Tivesse Lido. Esquivando-se de tais assaltos, você
alcança as torres do fortim, onde ainda resistem
os Livros Que Há
Tempos Você Pretende Ler,
os Livros Que
Procurou Durante Vários Anos Sem Ter Encontrado,
os Livros Que Dizem
Respeito A Algo Que O Ocupa Neste Momento,
os Livros Que Deseja
Adquirir Para Ter Por Perto Em Qualquer Circunstância,
os Livros Que
Gostaria De Separar Para Ler Neste Verão,
os Livros Que Lhe
Faltam Para Colocar Ao Lado De Outros Em Sua Estante,
os Livros Que De
Repente Lhe Inspiram Uma Curiosidade Frenética E Não Claramente
Justificada.
Bom, foi enfim
possível reduzir o número ilimitado de forças em campo a um
conjunto certamente muito grande, conquanto calculável num número
finito, embora esse alívio relativo seja solapado pelas emboscadas
dos Livros Que Você Leu Há Muito Tempo E Que Já Seria A Hora De
Reler e dos Livros Que Sempre Fingiu Ter Lido E Que Já Seria A Hora
De Decidir-se A Lê-los Realmente.
Você se livra com
rápidos ziguezagues e, de um salto, penetra na cidadela das
Novidades Em Que O Autor Ou O Tema São Atraentes. Uma vez no
interior dessa fortaleza, pode abrir brechas entre as fileiras de
defensores e dividi-los em Novidades De Autores Ou Temas Já
Conhecidos (por você ou por todos) e Novidades De Autores Ou Temas
Completamente Desconhecidos (ao menos por você) e definir a atração
que eles exercem sobre você(...).
Tudo isso para dizer
que (…) você se dirigiu a uma pilha de exemplares recém-impressos
de Se
um viajante numa noite de inverno,
pegou um e o levou ao caixa para ver reconhecido o seu direito de
possuí-lo.
Camila,
ResponderExcluirtenho um carinho gigante por esse livro e entendo a dificuldade de falar sobre ele :P
Mas é uma coisa de explodia a cabeça de tão legal, não é? (se bem que ele tem um time grade do "odeie" tb...)
AMO essa cena da livraria <3
bjsss, Ju
Obrigada pelo comentário, Ju!
ExcluirEu adorei o livro, confesso, mais pela sua forma do que pelo conteúdo em si. Senti que essa era a intenção do Calvino: nos conquistar mais pela estrutura narrativa do que pelas narrações por elas mesmas.
Bom, Calvino é amor <3
Mil beijos!
Hahaha... a maldição da página 82! Achei legal você não apenas ter falado sobre a história, mas também sobre sua relação com o livro. Existem alguns que não conseguimos ler em determinado momento, mas que se revelam incríveis quando tentamos novamente. Por isso acho muito válido abandonar uma leitura que não flui e deixar para depois. E fiquei bem curiosa para conhecer essa trama!
ResponderExcluirbjo
Michelle, que bom que você gostou!
ExcluirAcho que o bacana da resenha é mesmo falar sobre a nossa relação com o livro, não apenas falar da história em si.
Obrigada pela visita!
Beijinhos!
É um livro que não conheci a e, mesmo com essa super resenha, não consegui ficar interessada x_x
ResponderExcluirGih Alves || atualizado: Jeito Inédito
{ah, eu tô seguindo. Se puder retribuir ficarei muito agradecida :D}
Obrigada pela visita, Gi!
ExcluirNão tem problema não. Já li várias resenhas incríveis de livros que não tenho a mínima pretensão de ler ^^
Abraços!
Camila, você acha que não conseguiu fazer uma boa resenha?! Se o objetivo é instigar outros colegas leitores a lerem: você conseguiu. Fiquei bastante interessada =].
ResponderExcluirAbraços!
Ahhh, obrigada!
ExcluirEu gostei da minha resenha, mas confesso que ela foi muito, muito difícil de fazer =S Mas se causou essa sensação de curiosidade, meu trabalho está mais do que feito!
Beijos!
Camila, engraçado como certos livros precisam de seu tempo para serem lidos, né? Tenho livro comprado em 2006 que ainda espera sua vez.
ResponderExcluirMas que bacana a sua resenha. Não conheço nada do autor e já estou curiosa!
Beijos
Michelle, se você está curiosa eu fiz o meu trabalho direitinho.
ExcluirTenho livros que comprei há anos e que ainda não me chamaram pra leitura. Espero algum dia dar conta da maioria deles, especialmente dos clássicos x33
Mil beijos, moça! Obrigada pela visita e pelo comentário ^^
Estou com esse livro aqui para ler, por isso não li sua resenha toda, com medo dos tais spoilers que você falou, rs... Que bom que conseguiu terminar a leitura! E eu espero não empacar na página 82! =)
ResponderExcluirVocê não empacará, Bia! Torço por isso.
ExcluirOs spoilers que comentei são bem pequenininhos. Eles não estragam a leitura, porém preparam o espírito para coisas que você encontrará ao longo da narrativa. Se você aprecia o efeito-surpresa, então fez o melhor em não seguir a leitura da resenha.
Boa sorte e depois me conte o que achou!
Beijinhos!
Oi, |Mi|, adorei este seu espaço. Vim aqui porque também sou apaixonada por este livro. Mais por sua forma e também acho que era essa a intenção de Calvino. Acontece que um amigo acaba de ler o Se um viajante... (pela primeira vez) e fez um comentário que me levou a pegar meu exemplar e começar a reler pela enésima vez rsrs e a ir ao Google pra ver algumas resenhas, o que me levou à sua. Só pra você saber, comprei o meu logo depois de sua publicação no Brasil, em 1983! Sim, tenho bastante idade rsrs. Gostei também de ser sua estante no Skoob e queria saber como se faz isso de postar a imagem da estante num blog... me ensina? Abraços, Nilva.
ResponderExcluirOi, |Mi|, adorei este seu espaço. Vim aqui porque também sou apaixonada por este livro. Mais por sua forma e também acho que era essa a intenção de Calvino. Acontece que um amigo acaba de ler o Se um viajante... (pela primeira vez) e fez um comentário que me levou a pegar meu exemplar e começar a reler pela enésima vez rsrs e a ir ao Google pra ver algumas resenhas, o que me levou à sua. Só pra você saber, comprei o meu logo depois de sua publicação no Brasil, em 1983! Sim, tenho bastante idade rsrs. Gostei também de ser sua estante no Skoob e queria saber como se faz isso de postar a imagem da estante num blog... me ensina? Abraços, Nilva.
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